Profissão Repórter 02/05/2018

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Mais de um milhão de famílias vivem em situação precária em São Paulo.
Durante um ano, a equipe do Profissão Repórter percorreu São Paulo e acompanhou famílias que não têm onde morar. Repórteres conversam com moradores do prédio que desabou no Centro.
Um prédio de 24 andares ocupado por moradores sem-teto, no Centro de São Paulo, desabou após pegar fogo na terça-feira (1º). Segundo o Corpo de Bombeiros, 372 pessoas moravam no local. Cerca de 40 ainda não apareceram. José da Silva era gari e está desempregado. Ele foi morar na ocupação, no Largo do Paissandu, depois de não conseguir mais pagar aluguel: “Perdi tudo, mas não perdi minha família, que é o mais importante”. O porteiro Gerivaldo Araújo também morava no prédio: “Brasileiro já é acostumado a sofrer. A cicatriz é o que fica. Aqui no Brasil, quando você perde suas coisas, você perde a dignidade. O rapaz pendurado na corda não morreu porque ficou pra trás. Ele voltou como voluntário. Era o cara que mais ajudava os outros lá dentro do prédio”. Ana Paula morava no sexto andar da ocupação: “Uma casa acima da minha que causou todo o incêndio. Um casal brigou e colocou fogo neles mesmos, no botijão, mas o que vem ao caso é: e agora, o que vai acontecer com a gente? O que a Prefeitura vai fazer por nós?”. A equipe do Profissão Repórter percorreu São Paulo e durante um ano acompanhou famílias que não têm onde morar. Mais de um milhão de famílias vivem em situação precária na cidade, segundo a Secretaria de Habitação.
Incêndio em Paraisópolis Em 1º de março de 2017, um forte incêndio atingiu a favela de Paraisópolis, a segunda maior favela de São Paulo. Quinhentas e cinquenta e sete pessoas perderam suas casas. “O fogo começou em um barraco, com uma panela no fogão de lenha. Depois que pegou fogo, não vi assistente social aqui dentro”, disse Jackson Serafim, uma semana após o incêndio. Na ocasião, os próprios moradores começaram a reconstruir suas casas.
Edinalva de Cerqueira perdeu tudo: “Pelos menos consegui tirar os meus filhos. A vida prega muita coisa pra gente”. A família dela conseguiu da Prefeitura uma cesta básica e colchões. Eles também receberam ajuda de amigos. Em dezembro de 2017, nove meses após o incêndio, o local já estava praticamente tomado por novas casas. “Eles não deram nada pra gente, nós fizemos de novo. Eu fiquei três meses na casa dos outros”, conta Nilza da Silva, desempregada.
Atualmente, Edinalva e o marido estão empregados e compraram uma casa há poucos metros do local do incêndio. “A gente está construindo aos poucos. Pra mim, isso é uma vitória muito grande”, afirma.
As famílias que perderam tudo em Paraisópolis afirmam que não receberam nenhum benefício e que não tiveram nenhuma resposta da Prefeitura. Fernando Chucre, secretário municipal de Habitação fala sobre o assunto: “São 24 famílias que estão recebendo. A política habitacional do município determina claramente quais os critérios de atendimento. O que acontece nos casos de incêndio é que só as famílias de extrema vulnerabilidade têm direito de receber o auxílio moradia. Naquele caso, do cadastro total de famílias, 24 famílias foram identificadas com pessoas com deficiência, sem nenhum tipo de renda, ou seja, sem condição de procurar outro tipo de moradia”.
Questionado sobre o incêndio do dia 1º de maio no Largo do Paissandu, o secretário diz que nesse caso o atendimento está sendo feito pelo Estado: “Os critérios são diferentes. Já está definido que todas as famílias vão receber um auxílio aluguel por 12 meses”.
Reintegração de posse
Em janeiro de 2017, Inajara Trindade ocupava um apartamento com seus quatro filhos, em um prédio localizado em um bairro de classe média de São Paulo. Há quase um ano no apartamento, eles se preparavam para cumprir uma ordem de reintegração de posse. Só em 2016, Inajara e as crianças se mudaram seis vezes. Ela é esteticista, mas está há quatro anos sem emprego fixo. “Nós somos apenas pessoas que querem uma casa pra morar. Somos despejados, sem rumo, somos jogados na rua. Porque se a gente não procura um lugar pra ficar, a gente fica na rua, na calçada. A gente é humilhado publicamente com paralização de rua, com polícia. Eu sou uma mãe de família, não sou marginal”, diz Inajara emocionada. As 86 famílias que ocupavam o prédio deixaram os apartamentos sem resistir. Inajara e outras nove famílias foram para uma nova ocupação, em outro bairro nobre da cidade. Ao chegar no local, sem iluminação e sem água, ela se desespera: “Dá uma dor no coração de trabalhar tanto pra terminar assim, com as coisas quebradas, em um lugar desse. Mas é o que eu tenho, então eu vou aceitar”. Dez meses depois, Inajara já tinha se mudado duas vezes: “Nesse último prédio, sofremos uma reintegração muito violenta. Por pouco não perdi meus filhos e eles foram mandados para um abrigo. Aí pedi ajuda para os meus parentes no Paraná, mas eles não foram muito receptivos comigo”. Depois de três meses vivendo no Paraná, ela decidiu voltar a morar em uma ocupação em outro bairro de classe média: “Aqui não tá tão fácil, mas pelo menos tá mais tranquilo, aqui tá dando pelo menos pra dormir à noite. Não tá fácil por questão financeira, a discriminação tá maior, meus filhos estão sofrendo muito preconceito na rua. Nossos vizinhos vivem ameaçando chamar a polícia. A vizinhança aqui é hostil”.
Ocupação do MTST
Em março de 2017, Cristiano Miguel era um dos moradores da ocupação Anastácia, na Zona Leste de São Paulo, um terreno que tinha sido ocupado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST): “Morar aqui é bom, é melhor do que ficar na rua. Eu estava na rua uns dias, porque eu tô desempregado há um ano e oito meses”.
Cristiano tem três filhos que moram em Minas gerais. Só Cristian veio com o pai para São Paulo. Os dois estavam reformando o barraco em que moravam.
Em dezembro de 2017, a ocupação não existe mais. O movimento decidiu sair pacificamente do terreno em outubro de 2017. Hoje, Cristian mora com a madrasta: “mudou tudo pra mim, principalmente porque vou pra escola”.
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